sábado, 7 de agosto de 2010

A Mulher da Ilha do Ar


Vocês já ouviram falar de Laputa? Laputa é uma ilha que flutua no ar... mas antes de falar de Laputa, essa semana me peguei absorto pelo entendimento do que realmente significa amizade, e quando esse afeto que liga as pessoas se torna outra coisa; maior, ou menor.

Há algum tempo conheci uma jovem, de presença extremamente agradável. Muito inteligente e incrivelmente bela. Possuidora de muitos talentos, eu me encantei com a maneira como ela expressou seus sentimentos em relação a seu oficio. Ela possuía nos olhos aquela determinação que persuadi e influencia; um chamariz de liderança sabe? Aquele algo que desperta dentro de você uma vontade de conhecer mais a respeito das coisas; então, essa semana tive um Insight, cometi uma falha plausível, mas injustificável, considerei-me amigo dela. Não que isso fosse de todo ruim, mas quando não há reciprocidade na consideração, toda atitude pode ser julgada de maneira equivocada.

Aliás, o equívoco por vezes se mostra uma ação de fácil execução, quando buscamos entender as palavras, não no sentido que elas foram ditas, ou escritas, mas no sentido que elas têm para nós. Por isso, nos dias de hoje é tão difícil manter uma agradável conversa despretensiosa. Não que a pretensão não esteja implícita em algum lugar, mas ela só deveria se revelar se houvesse terreno fértil para isso, permitindo assim que duas pessoas pudessem trocar idéias e ideais, sem que uma parecesse demasiadamente interessada em tirar alguma coisa da outra.

Essa semana foi também uma semana de encontros e desencontros, fortalecimento de amizades e estremecimento destas – mas no fim, quando o equívoco muitas vezes se justificou, ou por falta de intimidade, ou por muita intimidade, tudo se resolveu, ou simplesmente calou. Agora fora esse engodo filosófico, meu grande amigo Nótlim Jucks me ajudou a fazer um presente para uma amiga especial e a partir daqui voltaremos a falar de Laputa.

Essa amiga especial há alguns dias sentenciou meu fascínio por uma determinada mulher, como "fisico", mas vou parafrasear NIETZSCHE para me defender: "De onde vêm às súbitas paixões de um homem por uma mulher, as profundas, íntimas? A sensualidade é apenas a menor causa disso; porém, quando um homem encontra reunidos num único ser a fraqueza, a necessidade de ajuda e ao mesmo tempo a petulância, ocorre nele algo que seria como se a sua alma fosse transbordar: ele fica, no mesmo instante, emocionado e ofendido. É nesse ponto que jorra a fonte do grande amor." – e assim sucedeu.

Na amizade, podemos sempre seguir por dois caminhos, tornando-a maior, ou menor; na amizade entre homens e mulheres, por vezes uma grande amizade aumenta e se torna uma relação tão intima que vira amor, e por vezes também se torna tão intima, que quando não se torna amor, diminui e deixa de ser amizade. Quando encontramos pessoas especiais, buscamos tornar a relação de amizade, a maior que podemos, mas equilibrada, para que ela não se torne menor.

Assim, publico abaixo o poema que Nótlim Jucks compôs para esta minha amiga especial e o quadro que Luis Royo pintou dela. Ela que sempre me faz bem, me inquirindo, ou me instigando; mas sempre me engrandecendo:

A Mulher da Ilha do Ar

Eu conheço uma ilha que flutua no ar.
De lá vem às meninas cabelos de fogo,
que sabem bem o que querem
e transformam tudo com um só olhar.

Eu conheço também uma dessas meninas.
Cuidadosa nos atos e palavras,
ela amedronta os fracos e enobrece os amigos,
e sempre faz isso com sinceridade juvenil.

Ela carrega em si a felicidade das crianças,
aquela felicidade que extravasa em lágrimas
de tanto que não cabe no peito,
uma alegria que muito nos faltas nos dias.

Eu conheço uma menina cabelos de fogo.
Ela tem a pele suave como uma rosa,
mas saiba que também possuí espinhos
e não tem medo de usá-los se for preciso.

Eu conheço uma mulher cabelos de fogo,
que como uma das rainhas das belas lendas
reina no coração dos afortunados
e causa inveja a corações despreparados.

Ela tem a força que encantava os homens azuis,
ela tem o poder das antigas deusas,
assim como a bela Guinevere que arrebatou Arthur
ela é capaz de te elevar até o mais alto céu.

Eu conheço uma ilha que flutua no ar.
De lá vem às meninas com poder de amar,
lá são formadas as mulheres mestras em encantar
e eu conheço uma dessas mulheres com fogo no olhar.


Segundo Alberto Manguel & Gianni Guadalupi, em seu "Dicionário de Lugares Imaginários", LAUPUTA, é a Ilha flutuante que paira sobre BALNIBARBI. Laputa é circular, com mais de sete quilômetros de diâmetro, trezentos metros de espessura e uma superfície total de 4 mil hectares. O fundo da ilha é uma placa lisa e regular de diamante de 180 metros de espessura, recoberta pelos estratos habituais de minerais e terra vegetal fértil. As encostas se inclinam na direção do centro da ilha, onde quatro grandes bacias recolhem as águas da chuva. Quando a evaporação natural não é suficiente para evitar que transbordem, a ilha pode se elevar acima das nuvens de chuva.
 
Os lados da ilha flutuante consistem em escadarias e galerias que tornam Laputa acessível da parte inferior. A comunicação com Balnibarbi é feita por meio de mensagens baixadas por cordéis. Alimentos e bebidas são puxados por meio de polias. Pratica-se a pesca a partir da galeria mais baixa.
 
No centro de Laputa há um precipício de cinqüenta metros de profundidade, pelo qual os astrônomos laputanos descem até uma grande cúpula, chamada Flandona Gagnole, ou Cova dos Astrônomos. Essa caverna fica a cem metros acima da superfície superior da camada adamantina. É iluminada por vinte lamparinas que queimam sem cessar e cujo reflexo na camada adamantina alumia toda a caverna, cheia de sextantes, quadrantes, telescópios, astrolábios e outros instrumentos astronômicos. Mas o objeto mais curioso (de cujo destino a ilha depende) é um magneto de tamanho prodigioso, cuja forma lembra uma lançadeira de tecelão. Tem cinco metros e meio de comprimento e, na sua parte mais larga, tem quase três metros. Esse ímã é atravessado por um eixo muito forte de diamante em torno do qual ele gira e está ajustado com tal equilíbrio que a mão mais fraca pode movê-lo. Ele está rodeado por um cilindro oco de diamante, com um metro e vinte de profundidade, outro tanto de espessura e onze metros de diâmetro, colocado horizontalmente e sustentado por oito pés adamantinos, cada um com cinco metros de altura. No meio do lado côncavo há ranhura de trinta centímetros de profundidade na qual as extremidades do eixo se encaixam eventualmente. Nenhuma força do mundo capaz de mover a pedra porque o cilindro se seus suportes fazem parte do corpo de diamante que constitui o fundo da ilha.
 
Graças a esse ímã a ilha sobe, desce e se desloca de um lugar a outro, porque uma das extremidades da pedra é fortemente atraída na direção de Balnibarbi, enquanto a outra é repelida. Se o pólo de atração está voltado para baixo, a ilha é puxada na direção da Terra. No caso oposto, ela sobe para o céu. Quando a posição da pedra é oblíqua, o movimento da ilha também é oblíquo, pois nesse magneto as forças sempre atuam em linhas paralelas à sua direção. Quando a pedra está paralela ao plano do horizonte, a ilha fica imóvel, pois nesse caso seus pólos estão iguais a distância da Terra e as forças de atracação e repulsão se anulam, impedindo qualquer movimento.
 
Esse magneto é manobrado pelos astrônomos, que o orientam conforme as ordens do rei. Eles passam a maior parte de suas vidas observando os corpos celestes, com a ajuda de telescópios muito mais potentes dos que os que se encontram hoje na Europa ou no Japão.
 
 
 
As únicas preocupações dos laputanos são a música, a matemática e a astronomia, ciências altamente desenvolvidas em seu reino. Eles catalogaram a existência de 10 mil estrelas fixas e descobriram os satélites gêmeos de Marte. Suas observações lhes permitem calcular com precisão o movimento dos 93 cometas que conhecem.
 
Sobretudo, os laputanos preocupam-se constantemente com as mudanças na natureza e no comportamento dos corpos celestes e no efeito que possam ter sobre a Terra. Temem, por exemplo, que a constante aproximação do Sol em relação à Terra possa carbonizá-la, ou que o próximo cometa possa destruí-la.
 
As mulheres de Laputa são muito vivazes e ansiosas para conhecer o mundo, o que não podem fazer sem a permissão do rei, raramente concedida, pois a experiência passada mostra que raramente retornam. (Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver, trad. Octavio Mendes Cajado, Rio deJaneiro e São Paulo, 1998)


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